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A MENINA E O VENTO
Ia caminhando tranqüila quando bateu um vento forte e suas
perninhas finas foram arrebatadas do chão num só
golpe. E voaram longe. Não longe como num tombo, mas
como num sonho. Que susto! Que frio na barriga! E
que diversão! Leve como o ar, e quente como gente,
fui subindo, subindo, e subiu até alcançar uma
nuvem, onde se enfiou. A nuvem lhe assustara
bastante. Sua textura não era algodoada como
imaginara. Não! Não era possível! Era feita de
fumaça, como a que sai de trás dos carros. Pura
poluição. Pureza nenhuma. E ali ela ficou presa,
respirando mal e mal, com olhos ardendo incapazes de
se nortear. Lacrimejavam tanto que a nuvem foi se
dissolvendo gota a gota e então a menina choveu. Uma
sensação engraçada. Caía cada vez mais depressa,
acelerando a cada instante, mas pôde ver o mundo de
longe, pequeno como é... Avistou pessoas e notou que
quanto mais se aproximava, maiores elas pareciam.
Aterrisou num monte de terra úmida que a engoliu.
Afundou, afundou e se perdeu na escuridão. Estaria
morta? Não poderia. Sentia! E o tempo foi
passando... Passando... E, minha nossa! Braços e
pernas foram surgindo por toda a extensão de seu
corpo, para todos os lados, e crescendo e tomando
força e ela desesperada: o que se tornara? Por um
tempo assistiu o incessante crescimento de seus
novos membros imaginando que jamais seria a mesma.
Até que teve a idéia de usá-los para chegar até a
superfície. Para que lado seria? Para cima? Para
baixo? Não importava! Tinha tempo... Foi se
esgueirando, empurrando a terra pelo que lhe pareceu
uma eternidade até que a claridade a alcançou.
Quando isso aconteceu seu corpo paralisou em
dormência e tudo o que podia fazer era senti-lo se
desenvolver. Não em busto ou quadris, mas em folhas
e raiz. Era uma planta! E que vida a de planta!
Pensou tanto – já que não tinha mais o que fazer –
que sua cabeça desabrochou numa flor. O pólen eram
idéias. Os passarinhos deram conta de espalhá-las
por aí. Era tão bela que um rapaz que ia passando a
arrancou num puxão e a levou como presente para a
dona de seu coração. Colocada num vidrinho d’água
ela resistiu o quanto pôde e enfim se entregou
exalando um cheiro encantador. Doara tudo o que
tinha, corpo e alma. Final feliz!
Nicolle Bello
Todos os direitos reservados à
autora
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